17 de setembro de 2018

'Graça e Fúria', de Tracy Banghart


Olá! ♥️
Representatividade importa sim! E muitos autores à sua maneira tem tentado inserir nas suas histórias personagens que representam a minoria. Embora nem sempre satisfatória, a representatividade surge como um grito que por muito tempo esteve abafado, mas que agora, espero, não vai mais se calar. Em "Graça e Fúria", de Tracy Banghart", temos o grito das mulheres na luta diária pela sobrevivência numa sociedade (não tão) fictícia, onde as mulheres não podem saber ler, não decidem, não escolhem e são criadas para serem graças e servir aos homens.


O livro é e sempre foi uma das armas mais significativas e fortes para vencer batalhas contra a ignorância. Nele recriamos espaços e universos, recontamos histórias e nos colocamos diante de acontecimentos que embora não represente completamente e fielmente a realidade, de alguma forma mostra um pedacinho dela, o suficiente para um primeiro despertar. E é a partir disso que o livro torna-se um "perigo". Assim pensam os homens de Virídia, cidade palco dos percalços pelos quais Serina e Nomi, personagens principais do livro, passarão.

Serina Tessaro sempre foi criada para ser uma graça. Bons modos, delicadeza, ser boa dançarina e se curvar diante do governante foram coisas que aprendeu durante todos os anos sendo preparada para a grande seleção. Em contrapartida, Nomi Tessaro acha tudo isso um absurdo, afinal uma mulher não deve ser escolhida, ela deveria ter o direito de escolher. Mas não é assim que acontece em Verídia. Enquanto sua irmã se prepara para ser uma graça, Nomi ocupa o papel de aia mesmo contra sua vontade. Ela acredita que não deve seguir regras e que pode fazer o que bem entende, inclusive até aprendeu a ler (algo proibido para as mulheres). Seu amor pela leitura é tão grande, que Nomi acaba cometendo um erro que vai colocar em risco a vida de sua irmã que agora está separada dela por ter levado a culpa. A partir de então, toda a narrativa é envolvida pela tensão e batalha de Serina e Nomi para sobreviver às prisões que as cercam e à lutas que colocam mulheres contra mulheres.
"A lei proibia que as mulheres lessem. Na verdade, a lei proibia que fizessem praticamente qualquer coisa além de parir, trabalhar em fábricas e limpar a casa de homens ricos." [pág.: 20]
Graça e fúria com certeza bebe da fonte de algumas distopias que já conhecemos e a relevância de sua temática torna a história mais impactante. É possível encontrar lembranças de "A Seleção", de Kiera Cass, na seleção para escolher a nova graça, bem como reconhecer desfechos de "A Rainha vermelha", de Victoria Aveyard na narrativa. No entanto, sem desmerecer as demais histórias, o livro de Tracy nos apresenta imagens sofridas de mulheres prisioneiras, reféns de seus próprios medos e do patriarcado, o que já é um motivo para darmos maior atenção já que a ficção segue os passos da realidade e nesse momento de desconstrução e luta pelos direitos da mulher se faz uma leitura necessária.

Ainda que não seja uma história memorável quando se fala em feminismo, Graça e Fúria se revela uma narrativa cheia de reviravoltas e diálogos inteligentes que faz um convite à reflexão a cada discursos de empoderamento e até mesmo de submissão presentes na narrativa. O tema abordado não se desenvolve de maneira simplória e traz questões bem reais que estão presentes nas sociedades há milhões de anos. Posso falar das humilhações pelas quais as mulheres passam, da violência com que são tratadas, da prisão a que são submetidas, entre outras coisas.

Serina e Nomi tem personalidades diferentes. Enquanto uma nega as imposições, a outra, para se manter segura, cede a elas. Mas agora, Nomi, que sempre quis escolher seu próprio destino, está presa em um palácio sem saber em quem confiar. Ela está de mãos atadas com medo de prejudicar e perder a irmã de uma vez, mas tentada a arriscar tudo para salvá-la. Enquanto isso, Serina, que foi criada para ser a garota perfeita, precisa ir contra tudo o que aprendeu para escapar da prisão. É nesse momento que a garota despertará e compreenderá o que a irmã costumava dizer. E vai descobrir que é mais forte do que imaginava.


Embora nem sempre Serina concorde com Nome e esta, por sua vez, também discorde de Serina, intriga alguma é capaz de fazê-las se odiar. Isso, além de amor de irmã é um ato de união. E num dado momento, em meio ao inferno que se revela para Serina, o leitor vai estar diante de uma grande luta pela sobrevivência. Essa luta é provocada pela vaidade dos homens que se sentem mais seguros quando as vêem brigando. Neste momento você perceberá a importância da união das mulheres e um superpoder chamado sororidade que se inicia na história e provavelmente estará mais evidente no segundo livro da duologia.
"O coração de Serina despencou. Mulehres não brigavam. Nunca. Nem com homens, nem com as outras. Violência era sempre punida da forma mais severa. Ela já tinha ouvido histórias de mulheres que haviam tentado lutar - uma prima distante que tinha se defendido do marido abusivo, uma mulher na fábrica de tecidos que havia estapeado um homem quando ele tentara beijá-la. Todas tinham sido severamente punidas. Açoitadas, presas. (...) Como aquilo era permitido no lugar cujo propósito era conter tal comportamento?" [Pág.: 74-75]
Como uma escrita leve e uma narrativa que empolga e toma a atenção do leitor, Tracy Banghart nos conta uma história que representa muito bem o sofrimento da mulher para se manter numa sociedade machista e nos apresenta uma possibilidade plausível para que esses homens as queiram diminui-las. A autora também traz o contraponto entre a mulher rebelde e a submissa e nos surpreende em dado momento quando insere uma retomada de consciência de uma das personagens, embora deixe a desejar, nesse primeiro livro, com a personalidade de Nomi, ainda que haja uma justificativa plausível para isso o leitor sempre vai esperar mais de suas ações.

Em suma, Graça e Fúria é uma distopia que merece ser lida com entusiasmo, merece ser dada de presente à sobrinha, à neta, à filha. E mais importante ainda, aos filhos, e primos, e netos. É uma história válida para quem está começando a ler e se interessa pelo tema da narrativa. É uma história que, além de reafirmar a força e a luta constante da mulher, que ela deve ser ouvida, nos mostra o quanto a leitura pode fazer de nós pessoas poderosas. 

Bjão!
Com carinho ♥️

8 de setembro de 2018

Álamo, de Raiana Soares: um mundo original e um talento


Olá! ♥️ Como vai?

No post de hoje vou apresentar a você o livro de uma jovem autora baiana, destaque na região onde nasceu e ganhadora de alguns prêmios como o Prêmio Escritores de Ouro, na categoria best seller na plataforma wattpad, além de outros prêmios notórios de literatura. Alamo é seu primeiro livro físico e foi publicado pela Editora Mestria


Raiana Soares é baiana e a Editora Mestria, também. Esses, inicialmente, foram os motivos que me levaram a aceitar a proposta de ler esse livro. Atrelado a isso está a importância de ler  novos autores e histórias nacionais, um desafio que me propus a um tempo. E é um desafio que vale a pena, pois tenho descoberto autores e histórias incríveis. E valeu muito ler Álamo, uma história leve e cativante que cumpre seu papel de passar uma ótima mensagem para o público a que se propõe.

Temos a história de Gabriel, adolescente que acaba de presenciar um assassinato. Mas além do trauma de estar no exato momento em que um homem é morto, o garoto terá que encarar a ideia de que esse mesmo assassino agora está atrás dele querendo matá-lo também para que não haja testemunha do assassinato. Em meio à corrida para se livrar do homem e salvar sua vida, o garoto Gabriel acaba indo parar num lugar totalmente desconhecido, onde tudo parece estranho a começar pela realidade de que ele não conhece ninguém, mas todos parecem conhecê-lo. Nesse lugar Gabriel conhecerá novas pessoas, viverá atritos e paixões, desafios que o levarão a questionar seus atos e que será como um convite para o auto-conhecimento.

Quando comecei a leitura de Álamo fui pego por uma ideia que me acompanhou até o último capítulo do livro quando tive uma surpresa inesperada e que me deixou contente. Amo ser surpreendido. Esse é um livro voltado ao público infanto-juvenil que traz à tona ambientes comuns aos quais os jovens estão acostumados a viver no seu dia-a-dia, além de intrigas também comuns, que fará com que você volte no tempo e até mesmo se reconheça dentro da história, reconheça suas fraquezas e limitações. Os personagens são cativantes, o cenário é criado de maneira que o leitor não consegue ter uma ideia fácil de onde tudo está acontecendo - e nesse contexto isso é algo positivo. A narrativa nos envolve num mistério que se mantém intacto durante toda a narrativa que consegue prender sua atenção facilmente.


A escrita de Raiana é confortável, fácil e cativante. A jovem demonstrou criatividade e originalidade na hora de criar a história e apostou em assuntos como autoconfiança, autoconhecimento, bullying e medo, problemáticas importantes de serem tratadas nas histórias e no contexto social de qualquer jovem. Você conhece sua capacidade de realizar grandes feitos? Você confia/acredita no que vê? reconhece seus limites?

Álamo é um livro para carregar no bolso e com pouco mais de 135 páginas nos envolve num universo paralelo cheio de monstros, situações inesperadas e personagens familiares. No entanto, embora reconheça uma narrativa de qualidade, senti falta de melhor aprofundamento nas problemáticas inseridas na história. Reconheço a capacidade que Raiane Soares tem para isso e gostaria de ver mais reviravoltas no que tange às problemáticas já mencionadas, que foram colocadas na trama e que tem muito a ser explorado. Penso assim também dos personagens que conquistam, mas que deixam o leitor querendo mais deles. Em dados momentos também senti um escorrego nas transições de cenas, que me deixaram confusas sem saber por qual caminho seguiria  história. O bom é que em seguida consegui me situar facilmente.

Um livro original, bem escrito, cheio de momentos engraçados e reflexivos, Álamo surpreende pela originalidade, pelo mistério que se mantém e pela reflexões que propõe ao leitor. Embora deixe um gosto de quero mais e de um desenvolvimento melhor em algum momentos da narrativa, é notável o talento que a autora tem para escrever e desenvolver boas histórias.

★★★

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3 de setembro de 2018

'Todo o Tempo do Mundo', de Maurício Gomyde


Olá! ♥️
Você já parou para se questionar o que é a felicidade para você? O que faz seu coração bater mais forte e realizado? Essas são algumas questões que você irá encontrar durante a leitura do novo livro do autor nacional Maurício Gomyde, intitulado Todo o Tempo do Mundo, publicado pela Astral cultural.
♥️♥️♥️
"Felicidade é viver a verdade que mora no fundo de seu peito, aquela que ninguém jamais vai conseguir arrancar de você."

Todo o tempo do mundo é o sétimo livro de Maurício Gomyde, que mantém seu estilo de escrita agradável, mas que mostra sua versatilidade e que marca um considerável amadurecimento como escritor. Diferente dos demais livros, Gomyde bebe da fonte da fantasia para trazer um novo elemento para a história sem abandonar o tom romântico comum a todas as suas histórias.

Vitor Picket e Amanda se apaixonaram quando ainda eram crianças e o beijo entre eles aconteceu durante a festa de formatura da escola, aos quatorze anos de idade. Foi nessa noite que além de Amanda contar que vai se mudar para fora do país, acontece um fenômeno estranho na vida de Vitor: ele começa a viajar no tempo. E esse tempo confuso para Vitor tratá uma série de acontecimentos no mínimo curiosos. Muitas coisas mudam, outras ficam na lembrança, outras são descobertas. Vitor agora é dono de uma vinícola e fabrica um dos espumantes mais gostosos numa cidadezinha do Sul do país, onde vive recluso acreditando que Amanda morreu num atentado. No entanto, Amanda trabalha, está casada e é gerente de uma das mais famosas e bonitas livrarias de Buenos Aires. Mas quando ambos recebem e aceitam o convite para comemorar os vinte anos da festa de formatura no Brasil eles não sabem que um encontro inesperado irá acontecer. 

Como eles reagirão a esse encontro? Como será para Vitor encarar sua estranha realidade e relação com o tempo quando estiver perto de amanda? Será que ele descobrirá a causa disso? E Amanda, como se sentirá ao reencontrar o grande amor depois de ter passado tanto tempo longe e sabendo que todos na festa imaginam que ela está morta?
"Felicidade é ter certeza de que as pessoas que a gente ama estarão para sempre ao nosso lado."
Talvez ao iniciar a leitura você acredite que Todo o tempo do mundo é mais um livro de fantasia sobre viagem no tempo e se surpreenda quando perceber que vai além disso. A fantasia envolve a trama, mas não se fixa como tema central. Esse é um livro sobre felicidade com alguns clichês muito bem colocados, com muita graça e humor, personagens críveis e diálogos inteligentíssimos. E não acaba por aí.

As problemáticas abordadas na narrativa são extremamente necessárias e foram muito bem colocadas. Quem protagoniza uma das situações é Amanda, que tem uma personalidade complexa por ser uma mulher que vive a vida assombrada pela tragédia que viveu na infância e que a fez perder os pais e sua melhor amiga. Seu refúgio é seu trabalho, local onde chega cedo e sai mais tarde do que deveria. Ela é casada com Juan, um homem importante em Buenos Aires, é amiga de Nicoláz, um rapaz extrovertido e generoso, e tem familiares que vivem vidas simples de muita felicidade. E é em meio a esse cenário que irá tentar sobreviver às adversidades que terá que enfrentar no seu dia-a-dia.

Os personagens são marcantes, desde o protagonista, que viaja no tempo e tenta descobrir o por quê de sua relação tão incomum com ele, e que ao mesmo tempo vive o forte amor por Amanda guardado por tantos anos, até mesmo os personagens secundários, que sustentam a trama quando aparecem ao redor de Vitor compondo o cenário onde ele passa seus dias - o que inclui o cachorro chamado Cão, companheiro de Vitor. 

E por falar em cenários, o livro nos dá imagens perfeitas dos lugares citados na história fruto de muita pesquisa por parte do autor, que fez questão de ir até esses locais entender melhor o que se passa por lá. Assim também aconteceu com o atentado que atingiu amanda. Foi real e isso torna a história mais atrativa por mesclar ficção com realidade. Isso permite um envolvimento maior entre leitor e narrativa, que como já foi dita segue com sua simplicidade, sensibilidade e precisão, além do tom poético e por vezes filosófico, marcas da narrativa de Gomyde.
"Poucas vezes na vida passei madrugada como aquela, com tamanha sensação de ausência de mim mesmo. E olha que nisso eu era mestre. Sempre tentava evitar me fazer as velhas perguntas existenciais: 'qual o sentido?', 'quanto tempo ainda me resta?'. E a mais dura de todas: 'por que eu?'. Mas aquele e-mail enviado à tarde pelo Cabeleira trouxera à luz uma história guardada em uma caixa trancada a sete chaves dentro do meu peito."
Outra característica das narrativas do autor e que marca presença aqui é a arte. A arte sendo enaltecida, arte como salvação, arte como cura e calmaria do coração nos momentos de paz. As referências musicais e literárias (que faz parte da vida do autor) está presente em Todo o tempo do mundo também. Prepare-se para colecionar dicas de músicas e de escritores, além de citações de pessoas influentes da música e das letras. Uma música que não está presente no livro, mas que me faz ter uma lembrança forte é Felicidade, de Seu Jorge.

Uma das curiosidades que gostaria de destacar aqui é que a arte da capa foi inspirada na capa do livro UM DIA, de David Nicholls - o autor contou durante um bate papo durante o lançamento do livro aqui em Salvador. As cores e cenários da capa são características simbólicos e que representa muito bem o contexto da história, que começa devagar, sem muitos fatos para entreter - além da escrita -, mas que melhora consideravelmente e ganha um ritmo perfeito.

Narrado ora por Vitor, ora por Amanda, Todo o tempo do mundo é um livro cheio de surpresas agradáveis e reviravoltas que não vão deixar você desgrudar do livro até que termine de ler. É uma história sobre amor, sobre amizade, sobre aproveitar bem o tempo, sobre o que nos movimenta e o que realmente importa na vida.

Bjux, com carinho ♥️

27 de agosto de 2018

'O Diário de Myriam', por Myriam Rawick.


Olá!
Tudo bem? ♥️

Você já leu O Diário de Myriam, relato de uma garota que sobreviveu à guerra na Síria? A Darkside lançou há poucos meses esse livro que traz o escrito de uma garota que começa com toda sua inocência e que ao passar do tempo vai adquirindo uma maturidade precoce por conta do caos da guerra.


O Diário de Myriam traz em suas páginas relatos de uma garota vivendo os infortúnios de um longo período de guerra na Síria. A menina Myriam começou a escrever um diário ainda muito novinha, tanto que é possível perceber a simplicidade nas suas palavras e no que está sendo contado, como o que ela fez no dia, para onde foi, o que gosta de fazer nos tempos livres, entre outras coisas. Os relatos começam a partir do de junho de 2011, Myriam ainda com seis anos de idade, com momentos calmos envolvendo família, amigos, passeios pela cidade, brincadeiras; até chegarmos ao momento em que as coisas começam a mudar e a escrita ganha um tom de melancolia e tristeza; às vezes, adquire também um tom saudosista.

Com fotografias fortes e prefácio do repórter, fotógrafo e correspondente de guerra, Yan Boechat, e tradução de Maria Clara Carneiro, o livro foi organizado pelo também repórter de guerra Francês, Phillippe Lobjois, que após a eclosão da guerra, decidiu ir até Alepo onde descobriu a história de Myriam e após encontrá-la trabalharam juntos para a organização desse livro que se tornou sucesso entre as crianças.

No início do livro, por exemplo, o leitor vai se deparar com algumas cartinhas fofas de crianças pedindo o lançamento do livro no Brasil, pois eles viram a notícia no Jornal do Joca, um jornal criado para Jovens e adolescentes no Brasil, e gostariam muito de conhecer a história de Myriam. 

À medida em que lê as páginas do diário, o leitor participa das alegrias e aflições presentes na narrativa. É quase impossível não se sentir tocado e não se colocar no lugar de uma garota que aos poucos foi perdendo o brilho de sua alegria para o medo, que teve que abandonar seu lar e seus brinquedos, teve que dar tchau a alguns amigos e que viu outras crianças e adultos passando necessidade, mas que nunca desistiu dos estudos, muito pelo contrário: Myriam arriscava a vida todos os dias indo para escola. Brincar na rua, ser livre já não podia mais. O que Myriam fazia era ficar em casa, muitas vezes sem energia, ouvindo sons de tiros e explosões ao lado dos pais e da irmã mais nova.
"Então, fui ao meu quarto.  Coloquei todos os livros da escola em minha mochila, uma bela bolsa rosa e branca com a Hello Kitty que mamãe tinha  há dois anos para a volta às aulas. Nós nos despedimos de todas as nossas bonecas , que juntamos e pusemos em uma grande mala aberta. Demos beijinhos nelas todas, dizendo-lhes que a gente esperava revê-las logo e que a gente não ia deixá-las muito tempo sozinhas." P. 172
Mas uma das coisas que também chamaram atenção, agora de um ponto positivo, é ver o quanto as pessoas em Alepo (cidade onde Myriam morava) se uniram e foram solidários uns com os outros no período de guerra. Eles dividiam lares, alimentos, comoções. Isso me fez perceber que ainda existem pessoas que se unem e se protegem. Pessoas que dividem, se abraçam, cuidam umas das outras. Infelizmente, muitas vezes só percebemos isso em momentos de infortúnios como aconteceu durante essa guerra. Acredito que isso é uma das coisas mais bonitas de recortar nessa narrativa.

Li há algum tempo o livro "A Guerra que salvou a minha vida", também lançado pela Darkside, e ao me deparar com o título pela primeira vez fiquei imaginando como uma guerra poderia salvar a vida de alguém. E foi após essa história que aprendi a extrair dos momentos de caos também uma razão para agradecer. Quando li Myriam e nos relatos em que ela contou sobre os vizinhos, sobre arrecadar alimentos e roupas para os desabrigados, entre outros atos de solidariedade, eu encontrei aqui o amor em meio ao ódio. E isso é o que podemos extrair de bonito nos dias cinzas de guerra que se seguiram por anos.

O Diário de Myriam é um livro emocionante sobre a guerra e sobre como ela pode transformar a vida de uma pessoa para o bem e para o mal, sobre como ela deixa marcas. Mas também é uma história sobre amar ao próximo, sobre solidariedade, sobre ter coragem. Uma história de pessoas tentando sobreviver em meio ao caos sem deixar que os dias cinzentos, os tiros e explosões retirem o principal de dentro deles: a vontade de viver seus sonhos e lutar pela vida.

Uma leitura para toda a família.

Um Beijo,
com carinho ♥️

21 de agosto de 2018

'A Vida Não Me Assusta', um poema de Maya Angelou


Olá! ♥️ 

Você conhece seus medos? Você conhece seus limites e entende que o medo é natural, mas se transforma num grande problema quando ele impede você de sair do lugar? Nunca li um livro sobre nossos medos de maneira tão direta e precisa como acontece com o livro de Maya Angelou publicado pela Darkside no selo Caveirinha. O livro tem edição especial de comemoração dos 25 anos de publicação do poema "A vida não me assusta" com pinturas originais de Jean-Michel Basquiat.


Organizado por Sara Jane Boyers e traduzido por Anabela Paiva, esse livro reúne dois artistas renomados, que viveram infâncias problemáticas, mas que ao longo da vida não se deixaram abater, enfrentaram seus problemas e mostraram seus talentos para o mundo. 
A Vida Não me Assusta é um pequeno livro de arte para crianças valentes, que enfrentam fantasmas e meninos brigões da escola com a cabeça erguida. É até difícil não se apaixonar por este livro. Publicado originalmente  há 25 anos, e até então inédito no Brasil, A Vida Não me Assusta reúne os talentos da poeta e Ativista Maya Angelou e do artista gráfico Jean-Michel Basquiat. Dois artistas com histórias de vida sofridas e infâncias problemáticas, mas que nunca se deixaram intimidar. Não importa qual obstáculo apareça no caminho, você sempre pode encontrar forças e formas para superá-lo."
Eu sou declaradamente apaixonado por livros voltados para o público infantil /infanto-juvenil, portanto quando recebi esse livro além de ter ficado feliz li imediatamente, e de lá para cá tenho lido sempre que posso. Assim como acontece com o livro "A parte que falta", de Shel Silvertein, A Vida Não me Assusta é indicado ao público infantil mas não subestima a capacidade de entendimento das crianças. E mais do que isso, o poema não se restringe apenas aos pequenos. Adultos leem também - e deveriam ler mesmo - já que o medo está para todos e as consequência do medo também. E por que comparei dois livros que parecem tão distintos? Cada um à sua maneira, traz questões que de alguma forma assombra: as "sombras e os monstros" e a busca incessante por algo que lhe falta, o que também pode ser assustador (algumas pessoas tem medo de ficarem sozinhas).

Esse poema é sobre os medos, é sobre encarar seus medos. É sobre viver em meio ao caos e dentro dele encontrar forças para seguir. Não é uma auto-biografia, mas acredito que a inspiração na escrita desse poema vem das adversidades de uma infância marcada e assombrada por situações complicadas e aterrorizantes, que se não enfrentadas ganham espaço e gera problemas maiores. E o medo é isso: um grande monstro que nos impede de seguir em frente, de arriscar, de enfrentar o mundo.
"Sombras dançando nos muros
Sons que brotam do escuro
Nada
na
Vida
Me
Assusta..."
O texto por si só já nos diz muito, mas as ilustrações de Basquiat nos permite uma experiência única de leitura, com as pinturas que representam os fantasmas e o caos perfeitamente. Eles representam a bagunça que o medo faz na nossa mente. São desenhos que dialogam perfeitamente com o texto, com traços e cores que fazem deles desenhos assustadores. O casamento entre texto e ilustrações se deu com louvor.

O livro conta com um posfácio de Sara Jane Boyers, que trabalha com arte. Ela é escritora, fotógrafa e seu foco permanece nas artes em geral, associado ao ativismo social. Basquiat também trabalha com arte, por muito tempo pintou paredes do Brooklyn, em Nova York, e sua arte refletiu as influências da cidade, junto das tradições africanas, francesas e latino-caribenhas, local de origem de seus pais e ancestrais. Angelou também além de cantora e de trabalhar com arte, com literatura foi ativista e lutou pelos direitos da mulher e do negro - ela lutou ao lado de Martin Luther King pela igualdade racial. Em uma das passagens do poema em questão, inclusive, há uma denúncia ao que chamas hoje de bulling e ao racismo. Ao final do livro você poderá conhecer o poema original, intitulado "Life Doesn't Frighten Me".

A Vida Não me Assusta é um livro no estilo foto-ilustrativo com artistas que amam/ amavam a arte e que lutam/lutaram contra as opressões e o preconceito. É para ser lido por qualquer pessoa independente da idade. É para a criança ler sozinha, é para o adulto ler, é para ser lido junto. As ilustrações merecem muita atenção, pois fazer a leitura deles permite uma experiência ainda melhor, levando o leitor além do texto. É um livro sobre enfrentar seus medos a partir dos problemas que surgem ao longo da vida ou das experiências traumáticas vividas. Merece muito ser lido! 
Bjux,
com carinho ♥️
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