14 de novembro de 2018

LEVE-ME COM VOCÊ, DE CATHERINE RYAN HYDE


Olá!
♥️

Se pudesse cantar a frase de uma canção para o livro sobre o qual escrevo hoje, eu cantaria

"Oh! Seu moço do disco voador
Me leve com você
Pra onde você for
Oh! Seu moço
Não me deixe aqui
Enquanto eu sei que tem
Tanta estrela por aí..."


Agora que já lhe dei uma canção para ouvir, lhe darei motivos de sobra para dar atenção a esse livro que tem uma beleza que vai além da arte de capa e das cores escolhidas. A beleza de "Leve-me com você" está nos personagens dessa história, nos lugares por onde vão e no tom ingênuo que também precisamos para manter o equilíbrio. "Leve-me com você" é um livro de Catherine Ryan Hyde, provavelmente o primeiro da autora publicado no Brasil. A narrativa conta a história de August, um rapaz vivendo o luto pela morte do filho e que encontra uma família que mudará sua vida e o ritmo de sua viagem.

August precisava consertar seu trailer para seguir viagem e felizmente conseguiu encontrar uma oficina na estrada. O destino da viagem é Yellowstone e o grande motivo dessa viagem é viver o luto e jogar as cinzas do filho que morreu há pouco tempo nos lugares por onde o adolescente desejava passar. Mas além de um mecânico competente o rapaz conhece seus filhos, Seth e Henry, duas crianças que farão August testar seus limites e reconhecer suas fraquezas ao mesmo tempo em que aprenderão com ele que não se deve limitar-se e pedir desculpas por ser quem realmente são. August mostrará e conhecerá também um mundo novo através de uma viagem cheia de beleza e desafios.

Leve-me com você é como a cor colorindo uma parede cinza e sem vida. Sensível e emocionante, a narrativa de Hyde nos coloca num lugar confortável e nos desperta sentimentos diversos quando nos apresenta a personalidades tão complexas e tão carismáticas, e nos convida a fazer uma viagem por lugares belos junto a elas. A história é leve, os diálogos são envolventes, os personagens são intrigantes e cada um ao seu modo desperta no leitor a vontade de conhece-los um pouco mais. E à medida em que o enredo se desenrola, vamos descortinando cada um deles e nos tornando mais próximos. Seja pela vontade de abraçar e não deixá-los sozinhos, seja pela vontade de ajudá-los a passar por um momento tão difícil e certamente tão real no nosso mundo. E isso não se aplica a apenas um personagens, mas a todos. Cada um se apresenta com suas limitações e barreiras a serem vencidas.

"Mas cada um de nós tem alguma coisa que causa tristeza, (...). E ninguém p ode nos salvar de todas elas." Pág.: 226

O livro traz à tona questões de relacionamentos familiares e problemas com alcoolismo, um assunto pouco abordado nos livros que já li e que me surpreendeu positivamente nessa história quando eu esperava um motivo comum e clichê para o que viria acontecer nos capítulos seguintes. Sem dúvidas os irmãos Seth e Henry são personagens marcantes e que abrilhantam ainda mais a história. Isso porque ao mesmo tempo em que se mostram como crianças espertas vivendo seus dias num lugar pacato e sem oportunidades, eles mostram uma sabedoria incrível. Seth é aquele que age; Henry o que observa. Mas ambos possuem seus medos e limitações. August também tem suas limitações pelo que aconteceu na sua família. O pai dos meninos, Wes, vive um dilema não tão fácil de ser resolvido - esse último é o tipo de personagem que mais te desafia a colocar-se no lugar do outro. E isso é incrível!

E por falar em colocar-se no lugar do outro o despertar da empatia é um dos pontos positivos da história, que conta com a vida dramática dos personagens, mas que mostra um tom ingênuo muito forte acredito e que acredito ser necessário. Há situações em que no mundo real seriam bem duvidosas, mas é bom pensar nesse momento no "com deveria/poderia ser". A autora foi muito feliz ao escrever uma trama com a problemática do alcoolismo, a negligência familiar, o luto, entre outros assuntos colocados levemente na história ainda assim, eficaz. Não choca, mas cutuca; te faz perguntas, mas não força a barra. A naturalidade e a verdade da história revela o segundo ponto positivo.

O relacionamento entre August e as crianças na história me reaproximou de Ada e Jamie, me fez lembrar o quanto os dois garotos levaram beleza para a vida de Suzan no livro "A Guerra que Salvou a minha Vida". Em ambos os livros fica claro o quanto a troca de afeto, de diálogo, de confiança e desabafo faz com que aos poucos eles se aproximem mais e se sintam mais confortáveis para vencer seus medos e frustrações.

Leve-me com você é uma história cativante que só reafirma o quanto o amor e a empatia são sentimentos que podem mudar tudo na nossa vida. E sobre como a presença e os ensinamentos muitas vezes despretensiosos de uma pessoa pode colorir nossa vida. E para além disso, uma história que deixa claro o quanto podemos ensinar ao outro e aprender com ele também.

Beijos,
com carinho.





12 de novembro de 2018

IMAGINÁRIO COLETIVO: UMA HQ DE WESLEY RODRIGUES



Olá! 

Depois de um tempinho afastado do blog - por motivos de falta de tempo suficiente para escrever - estou de volta. Estou num período tenso, embora gratificante. Estou finalmente terminando o curso de letras, já fazendo estágio supervisionado e relatório de estágio, por isso tem sido difícil vir até aqui sempre. Leio os livros no meu ritmo, mas já tenho alguns livros lidos para resenhar. Aos poucos trarei essas resenhas. Não desistam de mim, obrigado pela paciência. 
♥️
Uma das palavras que mais traduzem a minha personalidade é LIBERDADE. E embora não possamos ser livres sempre ou totalmente, eu sempre faço questão de falar sobre ela, de mostrar o quanto batalhar para alcançá-la é essencial. Por isso, quando li Imaginário Coletivo fiquei empolgado com o conteúdo que não só traz a liberdade como tema, mas que usou da liberdade poética para criar traços tão lindos e que ilustra muito bem o tom da narrativa de Wesley Rodrigues.


Primeiramente devo dizer que após a leitura dessa HQ você irá sentir ainda mais a vontade de voar. Sim! Seguir seu caminho, ser quem realmente é, alcançar voos mais altos. É uma das mais lindas histórias sobre ser livre que já li, mas também uma das mais complicadas de ser descrita. Porque se você não se libertar das amarras e do comum, se você não tirar o pé do chão, você simplesmente terá aqui alguns desenhos no papel acompanhados de palavras. E só. Mas Imaginário coletivo vai muito além disso.

A primeira HQ nacional publicada pela Editora Darkside, do animador Wesley Rodrigues, além de traços e pinturas que remetem ao absurdo e que tem características psicodélicas (exceto pela ausência de cor) nos envolve na grande explosão de um universo desconhecido - ou não -, com referências da bíblia no que se refere à criação. Fica claro no início da leitura que a história se trata de uma fábula  e temos aqui nesse universo almas esperando para conhecerem suas formas de vida na terra. Mas no meio de tanta confusão, aglomerados de partículas prontas para "Virem a ser" e ansiosas para pegarem suas senhas para descer para esse novo universo, nos deparamos com uma partícula que embora deseje revelar-se como um pássaro pegou a senha para ser vaca. Mas ela não quer ser vaca e tenta trocar de senha. No entanto, a recusam e por meio de muita força de vontade e ousadia ela consegue passar pela porta dos pássaros e chega ao mundo dentro de um ovo. É uma vaca com alma de pássaro. E quem a recebeu foi a fazendeira Jerusca e seu marido, o fazendeiro Agripino.

♥️
"Mas a vaca jamais esqueceu que queria ser um pássaro. 
Jamais esqueceu que queria voar.
Se imaginava em cima das nuvens."

O absurdo em que se faz a história nos traz muita graça com a trajetória da vaquinha-pássaro que a todo o tempo se esforça para voar. Você vai acompanhar sua evolução e seu treinamento diário com os pássaros até finalmente alcançar o céu e aprimorar seu voo sem desistir um segundo sequer de seus objetivos. Ela voará nem que seja preciso engolir todo o universo para isso.


Como já havia dito a liberdade é tema dessa HQ  e a beleza está em cada página e forma de pintura do trabalho do animador. Os traços remetem perfeitamente ao caos, cheia de traços imperfeitos, pinturas exageradas e caricatas. Eles se misturam com o ritmo da história e ambos dialogam perfeitamente. Nem sempre você verá palavras, mas sempre haverá imagens traduzindo a agonia, a pressa, a surpresa... dos personagens. É um verdadeiro desafio para sua imaginação. É para que você saia do mundo comum e perceba além do que está a seu redor. 

Imaginário coletivo é uma história que causa estranhamento, mas que consegue mostrar sua beleza dentro disso. Causa confusão, tédio, receio, sensações reais de desconforto quando nos deparamos com algo novo. Uma HQ com uma história atual, que traz à tona a importância de lutar pela liberdade de expressão e de ser quem realmente você é. Está linda e merece sua atenção.

Beijos,
com carinho ♥️

24 de outubro de 2018

Amores eternos de um dia, de Michele Contel


Olá! ♥️
Tudo bem?

Para começar o texto, antes de contar um pouco mais sobre o livro de hoje, quero dizer que nasci nos anos 1990. A internet não era tão aberta a todos, pessoas com boa condição tinham acesso ao serviço discado e o horário de melhor acesso era de madrugada. As pessoas faziam a festa nesse horário e tudo o que havia de parecido com os aplicativos de hoje era uma sala de bate-papo da uol. Celulares só enviavam no máximo mensagens de texto, além das ligações, e o uso de cartas ainda existia e era lindo. Conhecer alguém acontecia quando íamos numa festa e trocávamos telefone, talvez, ou então quando tínhamos a sorte de encontrar a mesma pessoa no ponto de ônibus, no shopping, passeando pelo seu bairro. Conhecer alguém a ponto de namorar era um processo mais demorado. Mas era gostoso. Porque cada descoberta sobre o outro era uma surpresa. Nada era pronto e a gente chegava lá pisando de degrau em degrau. Até que a tecnologia foi sendo aperfeiçoada, as cartas perderam um grande espaço, as redes e os aplicativos de relacionamento ganharam sua vez dando início às relações instantâneas nessa modernidade líquida já muito bem comentada por Zygmunt Bauman. E aqui estou eu, aos 28 anos, em 2018, tentando me encontrar nessa "selva" e escrevendo sobre um livro que traz à tona os motivos de minha estranheza. O livro em questão é AMORES ETERNOS DE UM DIA, da jornalista Michele Contel, publicado pela Editora Paralela.


Em "Amores eternos de um dia (Jogando a real sobre aplicativos e relacionamentos efêmeros)", Michele Contel escreve de forma leve, direta e divertida sobre os relacionamentos atuais traçando uma linha que vai desde o imediatismo das relações até a auto-sabotagem e a volta por cima. Quem nunca acreditou que depois de uma noite maravilhosa com o crush as coisas finalmente poderiam dar certo e que provavelmente muito em breve seria uma pessoa comprometida? Quem nunca buscou justificativas para o sumiço daquele boy (magia) tão maravilhoso, praticamente fechando os olhos para a realidade do que aquilo significa? Você? Pois é, eu também. E pergunto mais: você sabe o que é gosthing? E date? Sabe identificar um boy lixo? E sabe quando está sendo esse tipo de pessoa também? Se você tem dúvidas ou não sabe o que são esses conceitos com certeza encontrará nas páginas do livro. Mas se você já conhece todas essas questões encontrá situações no mínimo parecidas com o que você já passou, está passando ou está fazendo alguém passar. 

Sabe aqueles joguinhos do "quem fala primeiro" e até "vou dar um gelo para ver se ele sente minha falta"? É uma realidade na vida das pessoas na atualidade. Mas será que isso é saudável para você e suas relações? Essa é também uma das questões abordadas no livro que tem pouco mais de 200 páginas e traz à tona o cenário atual das relações iniciadas em aplicativos como Tinder, Happn, entre outros: resumindo, a superficialidade das relações que acontecem a partir da pressa de boa parte das pessoas que utiliza desses aplicativos para conhecer pessoas. E essa pressa não é algo que vem de um ou de outro. À medida em que a tecnologia avança cada vez mais rápido, dando a possibilidade do ser humano ser prático e encontrar coisas prontas de modo mais rápido, nós também nos movemos com pressa. 
"O imediatismo não só nos impede de conhecer de fato alguém como também facilita que a gente se deixe levar por impressões concebidas muito prematuramente. Isso nos afeta de várias formas: podemos, por exemplo, desistir de um romance por achar que ele não iria para a frente, ou ainda acabar nos apaixonando por versões de pessoas criadas por nós mesmos." (Pág.: 86)
Esse livro chega como um tapa na cara que nos diz "acorda!" e esfrega na nossa face a realidade que está presente há tanto tempo e por alguma razão não enxergamos ou simplesmente escolhemos não ver. Você vai dar muitas risadas, vai enxergar uma amiga, vai enxergar você mesma há cinco ou sete anos, vai enxergar você no agora e até identificar aquele embuste que está no seu caminho - ou que você permitiu que estivesse pelo menos. Além de tudo isso você vai, provavelmente, perceber referências e indicações de músicas e filmes como "Ele não está tão a fim de você", que inclusive é o meu preferido quando o tema é "você está se iludindo por quem não está tão a fim de você".

Outra abordagem do texto de Michele Contel e que é muito válida, é algo que estou sempre comentando entre meus amigos e que é muito válido e muitos de nós precisamos entender. O cuidado com o sentimento dos outros. Muitas pessoas acham que o sentimento do outro não interessa mais depois que a relação termina ou quando ambos não estão na mesma sintonia, mas não é bem assim. M. Contel vai dizer que é muita falta de honestidade não ser sincero ao perceber o envolvimento do outro quando você não está na mesma frequência. Ninguém é obrigado a ter reciprocidade quando o assunto é sentir. Afinal, está aí uma coisa sobre a qual a gente não tem controle algum. Quem dera! Mas todo mundo consegue ser verdadeiro se for preciso.

Em meio a relatos que podem ser reais ou fictícios você verá ilustrações que dialogam perfeitamente com o que está escrito e volto a dizer que não será difícil se sentir parte da história. E quando digo parte da história estou dizendo que você pode tanto estar do lado de lá - da pessoa estilo ghosting, no estilo boy lixo - quanto do lado de cá - com aquela ilusão com a qual se permite viver num determinado momento. E dos livros sobre as relações nessa era digital que li esse tem um grande diferencial: a autora coloca na mesa o quanto muitas vezes reclamamos do outro, mas agimos da mesma maneira nessa selva - como ela se refere a esse campo de batalha onde acontece os joguinhos do amor.
"As possibilidades são sedutoras e nós não conseguimos resistir a elas. E é por isso que, mesmo após uma série de desilusões, não desistimos do jogo. Cada partida perdida desenvolve uma habilidade que acaba sendo importante para o próximo jogo. Vamos ganhando diferentes experiências, que vão desde a identificação  de personagens cativos nesses enredos até a criação de estratégias para lidar com esses tipos. Como o boy lixo." (Pág.: 115)
Não teria pontos negativos para apontar, a não ser o tom de auto-ajuda que o livro assume nos capítulos finais com todos aqueles clichês que relatam a necessidade do amor próprio - o que de fato é real. Há leitores que gostam, outros não. Mas se você me perguntar se isso enfraquece a qualidade do livro eu vou dizer claramente que não. A vida tem seus altos e baixos, os textos que lemos também. O que não quer dizer que seja ruim. Equilíbrio é tudo! ♥️

Em meio a abordagens pertinentes e alguns clichês, "Amores eternos de um dia" é um livro para ler numa tarde gostosa, deitada numa rede e tomando um delicioso suco. Um livro para ler com a amiga compartilhando suas experiências, rindo das estranhezas e refletindo sobre quem você está deixando entrar na sua vida, como está sendo isso e sobre como a caminhada até o amor próprio pode ser árdua. E ela é! Mas a boa notícia é que uma hora a gente amadurece e encontra nossa paz.

MICHELE CONTEL nasceu em 1992, em Araçatuba, interior paulista, e vive um relacionamento sério com São Paulo desde 2015. Formada em jornalismo, as palavras sempre foram a paixão da sua vida, tanto no primeiro blog, criado aos quatorze anos, como nas fanfics de Harry Potter e Mc Fly, escritas aos quinze. Amores eternos de um dia é seu primeiro livro.


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Um beijo,
com carinho ♥️  

17 de outubro de 2018

Perigosa Amizade - O Começo, de Gisela Bacelar


Olá, ♥️

Vamos de mais uma dica de livros e hoje de um livro nacional. Perigosa Amizade - O começo, é um livro de Gisela Bacelar publicado pela Editora Planeta e reúne situações do cotidiano de um grupo de adolescentes na escola e fora dele, que traz atona a questão do machismo, do preconceito, das amizades tóxicas, entre outros temas.


 Eu gosto muito de histórias que trazem personagens adolescentes vivendo seu cotidiano e o ambiente escolar. Gosto de livros que abordam temas sérios e importantes, que me faz ter a sensação de que sou parte da história e que o ambiente criado também é aqui e agora. E foi exatamente assim que me senti durante a leitura de Perigosa Amizade, que inclusive tem uma narrativa confortável e linguagem pertinente para o contexto da trama.

Na história você vai conhecer um grupo de adolescentes ainda na escola vivendo os dramas da adolescência e a necessidade de curtir festas, viver a primeira vez, o primeiro beijo, além de descobrir novos prazeres e fazer novas amizades. Nem todos são amigos, nem todos se conhecem, mas em algum momento a vida desses personagens se cruza e é em meio a situações inusitadas, amizades tóxicas e decepções que eles entenderão a importância de valorizar as pessoas que mais amam antes que seja tarde demais. O que a gente deixa para trás e o que a gente leva com a gente nessa vida? Quem são as pessoas que estão ao nosso lado e aquelas que somente caminham do nosso lado e na primeira oportunidade muda de direção? 

Quando comecei a ler esse livro eu disse que leria apenas o primeiro capítulo, pois deveria priorizar outras coisas naquele momento do meu dia. No entanto, quando percebi já estava além do capítulo cinco. Como já disse a narrativa é agradável, os diálogos são muito bem contextualizados com o momento da vida dos personagens e os ambientes onde vivem os adolescentes da história e reforço a ideia de como "Perigosa amizade" é uma história que lhe dá a sensação de já ter vivido tudo isso. E de fato, qual adolescente nunca viveu incertezas e pressões relacionadas a sexo na adolescência? Quem nunca teve uma amizade tóxica, um amigo que teve contato com drogas? E quem nunca teve aquela amizade que parecia que duraria uma vida inteira, mas que em algum lugar durante a caminhada se perdeu?

Assuntos como uso de drogas, pressão familiar, primeira relação sexual, machismo, entre outros fazem parte da história que terá continuação. No final desse livro você terá uma ponte para a continuação, que promete seguir a mesma linha do começo, trazendo os confrontos com os quais nos deparamos na adolescência. 

Foi impossível não lembrar do programa "Malhação", que está na programação da Globo desde 1995. Os temas abordados no livro em questão sempre estiveram presentes no programa global e foi bom poder encontrá-los num livro cujo formato de narrativa me lembra muito uma novela. E também segue com um formato parecido com outros programas e novelas que trazem a vida adolescente à tona. No entanto, a quantidade de personagens da história pode causar uma confusão da cabeça do leitor. São diversos personagens, alguns com nomes parecidos e a cada corte de cena você precisa ficar atento para lembrar quem é quem e o que aconteceu com eles anteriormente. 

Mas isso é um ponto que acaba com a qualidade da história?

Não, de forma alguma. É só uma maneira de dizer que pode incomodar e que você precisará de atenção durante a leitura. O que trago com um lado não tão positivo para o texto e que algumas cenas poderiam ser melhor trabalhadas no quesito "não soou tão natural".  O que também para mim não incomodou tanto a ponto de abandonar a história, mas que causou sim aquele ruído que eu costumo não ignorar, mas que também sei que faz parte. 

"Perigosa Amizade" foi uma livro que me deu muita satisfação durante a leitura e me trouxe sensações agradáveis, principalmente a de nostalgia. Foi impossível não lembrar minha adolescência, meus conflitos com minha personalidade, as decepções com amizades e todas as dificuldades e preconceitos que sofri. Foi como regressar no tempo. E isso, dentre todas as outras satisfações, é o que mais fez com que a leitura valesse a pena. Porque pude me ver de longe e em seguida pude olhar para o agora e perceber o quanto evoluí como pessoa.

Eu indico a leitura para você que é adolescente e para você  que já saiu da adolescência. Para você que é mãe e pai e para você que gosta de histórias que lhe oferecem uma leitura rápida e envolvente.

Bju,
com carinho ♥️ 

11 de outubro de 2018

O quarto de Giovanni, de James Baldwin


♥️
Olá!

Uma das características do livro sobre o qual você lerá hoje é a fluidez da narrativa. E para além disso, o tom poético e a dureza das palavras e a transparência de um sentimento que ora é conforto, ora é agonia. 'O quarto de Giovanne' é o primeiro livro dos vários títulos do autor que serão relançados pela Companhia das Letras.


A história é ambientada na boêmia Paris da década de 1950 e nos conta sobre David, um americano de família rica e Giovanni, jovem italiano que trabalha num bar da  cidade. David decide sair de Nova York para passar um tempo na capital francesa enquanto espera sua namorada, Hella, que finalmente virá da Espanha para trazer a resposta ao pedido de casamento do rapaz. É durante esse período na capital que David conhece Giovanni de modo inesperado enquanto bebe num badalado bar. E é entre conversas e desafios, papos sobre as estranhezas e a cultura e comportamento de cada um que eles se envolverão sentimentalmente e isso vai pôr em xeque as convicções e os planos de David.

Desde "Me Chame pelo seu nome", lido no início do ano, nenhum outro livro me tocou, me afligiu e me trouxe sensações de familiaridade e estranheza tão forte como aconteceu com "O Quarto de Giovanni", de Baldwin. Foi uma experiência única fazer essa leitura, pois além de me sentir envolvido numa narrativa poética e fluída, pude ter contato com as particularidades da sociedade parisiense de 1950. A mistura do forte drama com as características dos complexos personagens e do olhar da sociedade daquele período tornou a leitura mais interessante, real e muitas vezes chocante. É engraçado olhar para trás e perceber que os preconceitos da sociedade, ainda que disfarçados, permanecem vivos ao nosso redor ditando modos de viver, agir e se comportar no meio onde vivemos. Talvez esse sentimento de familiaridade que a leitura nos causa venha do relato de que a história em questão parte de relatos da vivência pessoal e da observação do autor.
"Parte da atmosfera de ' O quarto de Giovanni' proveio da observação atenta e da experiência pessoal, como o autor deixou bem claro numa entrevista realizada em 1980. Ele conta de que momento utilizou algumas pessoas que conheceu..."
Essa é uma das narrativas em primeira pessoa mais competentes que já li. Da noite iluminada e dos lugares caóticos de Paris aos sentimentos mais íntimos e incômodos, Baldwin nos coloca na presença desses lugares e nos faz sentir de maneira intensa traçando imagens simples, mas fortes e precisas do que está acontecendo na história. De repente passamos de meros expectadores da vida desses dois homens e somos colocados no lugar deles com todas as expectativas, anseios, medos. A realidade também é nossa até que a narrativa nos conceda a vez e então passamos ter a nossa percepção de mundo: a do tempo atual e do agora. E não importa em que lugar do mundo você esteja. Haverá sempre uma estranheza ou uma perspectiva sobre o assunto abordado no texto.

E o que a gente encontra aqui é o retrato da sociedade de Paris e as mentes escandalosas das pessoas que se escondem, que buscam viver aventuras e ser quem são nos bairros boêmios da cidade. O racismo e o machismo, além do preconceito, são temas marcantes em "O Quarto de Giovanni". A questão da homossexualidade está aberta e todos os olhares perversos que os próprios personagens tem para si também. Tanto que o próprio autor também revela que esse livro é menos sobre homossexualidade do que sobre o que acontece quando você tem tanto medo que acaba não conseguindo amar ninguém. A crítica social aos costumes e aos comportamentos dos homens se assume em comentários ácidos feitos pelo personagem principal e nos revela o quanto o personagem é, além de assustado, dominado por esses olhares que o faz sentir medo e receio de ser quem realmente é.
"Estavam lá os cavalheiros de sempre, barrigudos, de óculos, de olhar ávido, por vezes desesperado, e também os rapazes de sempre, esguios como facas, com calça justas. Nunca se sabiam direito, a respeito desses rapazes, se estavam atrás de dinheiro, sangue ou amor. Zanzavam de um lado para o outro sem parar, filando cigarros e bebidas, com alguma coisa atrás dos olhos ao mesmo tempo muitíssimo vulnerável e duríssima."
O forte sentimento que os rapazes nutrem um pelo outro passa a ser motivo de desespero para os dois. Enquanto um se desespera amando quem no fundo sabe que pode e vai perder a qualquer momento, o outro se vê dividido entre o sentimento que parece existir agora mas que pode dissipar no momento seguinte. Há uma luta interna muito grande por parte de David, que também espera pela namorada, que poderá tornar-se esposa, ao mesmo tempo em que não consegue deixar Govanni. Esse que por sua vez parece enlouquecer com a verdade - e de paixão - e tenta fechar os olhos para ela e aproveitar ao máximo o agora. Giovanni, é um rapaz solitário, e embora muito requisitado e bonito, parece sempre perdido e com a sensação de perda. Talvez um acontecimento do seu passado tenha lhe rendido temores e sentimentos confusos, que até certo ponto o rapaz parece saber administrar. Até que finalmente se depara com a realidade da qual temia desde o início - que talvez fosse ficar sem David ou simplesmente ficar sozinho - e então finalmente a máscara do menino forte cai e Giovanni revela seu quarto escuro e menino interior assustado. O quarto que o título se refere pode muito bem ser uma metáfora da vida e dos sentimentos de Giovanni.

Esse menino assustado, que também é David se apega às suas mentiras e prefere manter-se confortável numa relação normal, com uma vida normal, ao lado da mulher que escolheu viver. Aquela que também viveria uma vida normal ao lado dele. O machismo e o preconceito tão impregnado no personagem, acaba por deixar o relacionamento fadado ao desastre: será que ele conseguirá fingir ser quem não é durante tanto tempo? Esse questionamento que me fiz me remete ao mesmo questionamento que fiz quando assisti ao filme "Segredos de Brookback Mountain", quando os dois personagens viveram um relacionamento escondido de suas esposas.

Tão antigo quanto atual, "O Quarto de Giovanni" traz à tona a complexidade dos sentimentos humanos, mas principalmente o quanto a sociedade e as construções sociais ditas as regras e ganham o domínio de uma pessoa. Uma história sobre ter medo de sentir, sobre o medo de ser quem realmente é, sobre como o olhar do ser humano e o seu olhar para você mesmo pode ser perverso e injusto.

Bjão, ♥️
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