17 de maio de 2018

Dia Internacional Contra a homofobia: Uma conversa sobre empatia e respeito



Como você se sentiria ao acordar para o mundo e para você mesmo, na condição de uma pessoa "diferente"/estranha em relação às demais? Você consegue ter uma ideia de como seria ou conseguiria imaginar a sensação de não ser parte do meio; de não ser aceito por não ser "igual" aos outros?

Certamente você não teria ideia de como é se sentir assim. Porque você é parte do meio e você é considerado uma parte normal da história desse lugar, que desde cedo nos disseram se chamar mundo. Certamente você não consegue imaginar como é se sentir excluído porque é você que exclui; não sabe como é se sentir um brinquedo defeituoso porque dentro daquele baú você é perfeitamente aceitável. Mas você gostaria de se colocar no meu lugar e entender minha dor a cada vez que nos dizem que mereço morrer? Seria corajoso ou corajosa a tal ponto? Porque é preciso ser forte para encarar um dedo apontado para você, uma palavra de ódio exclamada ao pé do seu ouvido, uma pancada que deixa marca não só fisicamente, mas também na alma.

Essa não é uma imagem autoral. O autor me é desconhecido, a fotografia foi retirada da internet e é meramente ilustrativa.

Eu nasci em 1990, meses depois, no dia 17 de maio, a expressão "homossexualismo", utilizada para se referir às pessoas que se sentem atraídos pelo mesmo sexo foi desconsiderada. Mas sabe o que é mais engraçado? Eu tinha meses de vida, agora vivo há pouco mais de duas décadas e ainda escuto pessoas se referirem a mim como se eu fosse uma pessoa doente - "olha lá, ele e o homossexualismo dele". Mesmo assim, retirar a expressão do caderno e das ideias dos grandes, como um diagnóstico absoluto, não deixou de ser uma vitória. Estamos caminhando lentamento, não chegamos na metade do caminho, mas já temos nosso escudo. E hoje é mais um dia para utilizá-lo e deixa-lo em evidência. Hoje comemoramos o dia internacional contra a homofobia.
No Brasil, a expressão "homossexualidade" só passou a valer a partir de 04 de junho de 2010.
Sabe o que acho incrível? A afirmação de boa parte das pessoas, quando dizem que temos escolhas na vida e que ser gay é uma delas. Me pergunto se essas pessoas estão dentro de mim ou de quem quer que seja e conseguem sentir de fato como é que as coisas acontecem por dentro. Porque uma coisa é certa: ninguém escolhe sofrer violência, ninguém escolhe ser excluído e ninguém escolhe morrer. Portanto, ninguém escolhe ser gay. É uma condição - vale lembrar.

Sabemos o quanto é complicado conscientizar pessoas e levá-las à compreender os grupos LGBTQs, ditos minorias, quando temos uma construção social taxativa, machista e intolerante. Mas a gente não pode abrir mão disso, por isso decidi escrever esse texto no dia de hoje para que você possa me entender. Sou gay, sim, mas acima de tudo sou um ser humano e que precisa trabalhar para pagar as dívidas. Assim como você. Olha só que engraçado! Temos a capacidade de sentir igual, de se machucar, e temos sangue para sangrar. Além disso, não estamos escapes de qualquer tipo de sentimento, portanto em que sou diferente de você? Pelo fato de me voltar para o amor de alguém que tem o mesmo sexo que eu? Com certeza isso não muda em nada na sua rotina, afinal você não depende dos meus sentimentos ou da minha vida para para viver. Eu também não dependo da sua.

Não encare esse texto como uma afronta, mas como um convite à reflexão. Entenda que não podemos julgar o sentimento dos outros quando não conseguimos explicar os nossos. E entenda que a solução não é aceitar ou deixar de aceitar: é se permitir colocar-se no lugar do outro e compreender que ninguém precisa pedir permissão para ser quem realmente é. 

A Psicologia na luta contra a homofobia.

Hoje comemoramos o dia internacional da luta contra a homofobia. Mas somente um dia de conscientização não é suficiente para falar dos seres humanos que sentem na pele e na alma, a dor, o medo, a indiferença e o preconceito de uma sociedade carente de amor, escassa de escuta, de afetividade, compreensão e empatia. Por sinal, Empatia é um assunto muito falado hoje em dia, mas muito pouco praticado, infelizmente. Os seres humanos nascem com tendência a serem empáticos, pois somos seres sociáveis e precisamos do cuidado do outro para sobreviver. E esse cuidado está para todos, independente das escolhas, histórias de vida, da educação, da cor da pele.

Que tal se você começar hoje a se questionar, a olhar um pouco mais para dentro de si, colocar uma dor que você sente em silêncio, para fora? Que tal pensar naquela situação de bullying que você viveu na escola? O quanto isso doeu, você consegue lembrar? Todos nós já fomos "atacados" por alguém de alguma forma, e temos essas marcas em nossas almas. Agora coloque-se no lugar daqueles que sofrem isso todos o dias apenas por levarem estilos de vida diferentes dos seus, por fazer escolhas diferentes das suas; e até mesmo aqueles que são agredidos e os que, infelizmente, são mortos.

Todos merecem ser respeitados em suas condições de vida. Praticar a empatia, colocar-se no lugar do outro e buscar o auto-conhecimento é a melhor maneira de termos um mundo mais amoroso e respeitador, com pessoas que reconhecem a diversidade e a pluralidade do lugar onde vivemos. O psicologo é o profissional apto para ajudar na busca pelo auto-conhecimento. E a psicologia honra o compromisso no combate às opressões, sobretudo à homofobia e o machismo, garantindo, então, o compromisso que a psicologia tem com os Direitos Humanos.
A segunda parte dessa publicação foi escrita por Milena Sallenave, psicóloga/ psicoterapeuta de família/ Educadora Perinatal. Milena tem 27 anos, nasceu em Salvador-Ba, onde também exerce sua profissão.
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Bjão, com carinho ♥️

4 comentários:

  1. Eu tive criação católica então já da para imaginar como eu via os homossexuais,lembro uma vez que coloquei em um caderno de perguntas o que fariam se descobrissem que o filho era gay, acho que as respostas foram o primeiro gatilho para acabar o meu preconceito, a maioria respondia que daria uma surra, poucos dariam ao menos a chance de entender. Depois fiquei em dúvida sobre minha sexualidade (até hoje tenho) e falei para minha mãe, ela disse que era fase, mas não me agrediu, casei contei minhas dúvidas para meu marido e ele abriu ainda mais minha mente, o preconceito havia acabado, segui canais que falavam sobre o tema e conversávamos muito em casa, até que meu enteado de 15 anos se assume gay e o que ele disse é que se sentia seguro conosco, mas o que me doeu foi ele dizer que ele tinha medo do futuro e eu saber que ele tinha razão com esse medo. Espero que um dia esse medo não exista mais e que as pessoas se respeitem.

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  2. Primeiramente, muito obrigado pelo relato. A única resposta à altura do absurdo do preconceito é sua desconsideração. No entanto, eu gostaria de aproveitar a chance e fazer algumas perguntas e aprender um pouco mais sobre o tema: 1) você consegue identificar um grupo (em termos de características compartilhadas como por exemplo credo, idade, ocupação, etc) que seria o maior responsável por iniciativas discriminatórias? 2) o que você identifica como motor dessas ações? Novamente, obrigado por compartilhar. Um abraço.

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  3. Parabéns que texto . Primeiramente vou usar esta parte para vida " entenda que a solução não é aceitar ou deixar de aceitar: é se permitir colocar-se no lugar do outro e compreender que ninguém precisa pedir permissão para ser quem realmente é. " . Com este texto você me fez ter mais afirmação das coisas , entre minha familia se tem muito machismo e eu e meus primos temos lutado contra isso , mostrado não só a os homens da familia mais também as mulheres que tem pessoas diferentes e que a diferença é mais bonita do que o encaixe perfeito da sociedade .

    https://gabbyteensilva.blogspot.com.br/

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  4. Parabéns pelo relato corajoso Diego, suas palavras me tocaram e me fazem refletir: apesar de tantos avanços que a sociedade apresenta em termos tecnológicos, o lado humano, de empatia com o próximo, caminha lentamente. A comemoração do dia internacional contra a homofobia é um marco importante, espero que outras conquistas surjam ao longo do tempo.

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